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Arquivo da categoria: Letras Hebraicas

Gimel (I)

Retornando aos comentários sobre as letras hebraicas, este post será sobre a letra gimel. Ela é a terceira letra do alfabeto hebraico (fig. 2.b, na forma quadrática da letra). Seu som sempre é de um “g” forte, como de galo mas nunca g fricativo como em gelo. Seu valor numérico é 3.
Pois bem. A respeito de qual representação pictográfica esta letra derivou não se tem muita certeza, como a maioria das letras hebraicas. As formas dela no fenício e proto-semitico, praticamente idênticas, são representadas na figura 2.a. Alguns estudiosos, como Alan Gardiner em sua obra “The Egyptian Origin of the Semitic Alphabet”, acreditavam que esta letra derivava da forma de um cajado ou haste na língua egípcia (fig. 1.a). Mas outros pesquisadores afirmam que poderia ser derivada do hieroglífico egípcio para “pé, perna” (fig. 1.b), trazendo consigo a idéia de “andar, caminhar, trazer, estabelecer”. Esta ultima opinião é a que sustento. Vejamos o porquê é a mais coerente.

O nome original desta letra provavelmente não era “gimel” (גימל), tal como a nomeamos atualmente, mas “gam” (em árabe até hoje é assim pronunciado, jam, جَم). Interpretando as letras que formam este antigo nome, teremos o significado original e primitivo de sua raiz e seus derivados. A letra Mem (מ), como veremos adiante em outro post, significa “águas” ou “mar”. Se o g (Gimel) de gam significa “pé, andar, caminhar” e o m (Mem) “águas”, então temos “andar para perto da água”. Estranho? Para nós pode não haver significado algum nesta frase, mas para os antigos hebreus ela era extremamente significativa e prática. No deserto, o “mundo” dos povos nômades, o local onde os hebreus faziam suas tendas para descansarem ou firmarem acampamento antes de partirem para outro local em busca de mais rotas de comerciantes ou para algum centro urbano era algum lugar perto dos oásis, locais com verdadeiras fontes de água, em plena sequidão do deserto, onde humanos e animais (como camelos, jumentos etc, animais de carga e transporte para o comércio e deslocamentos) poderiam estar juntos se reabastecendo para uma nova jornada. Como o hebraico é uma língua lógica, cuja base é a vida semi-nômade-pastoril hebréia primitiva, então esta raiz (gam) em sua antiga língua quer nos mostrar justamente isso: o “ir e se ajuntar ao local das águas” para a sobrevivência no deserto de animais e humanos.
Para conferirmos isso mais de perto, é só vermos a partícula גם em hebraico. Ela significa “também” ou “e”, e sempre traz a idéia de associação, conjunção, agrupamento, como em Ct 7:13 “As mandrágoras exalam o seu perfume, e às nossas portas há todo o gênero de excelentes frutos, novos e velhos (חדשים גם ישנים); ó amado meu, eu os guardei para ti”. Igualmente o verbo gamam, גמם que não possui documentado seu uso no hebraico antigo, mas que tem o significado de “ajuntar, congregar, aumentar, amontoar”. Isso porque a sua raiz cognata no árabe tem este mesmo significado (جَمّ, jammGímel em árabe tem som de “j”) e no hebraico antigo ela se encontra no núcleo da palavra מגמה, megammah, e significa “bando, ajuntamento” (árabe جمة, jummah). Este vocábulo hebraico aparece uma única vez no Velho Testamento, em Hq 1;9, na expressão מגמת פניהם, que pode ser traduzida como o ajuntamento de seus rostos”.
A partir do que foi visto acima, podemos perceber que aquela idéia mostrada anteriormente de “dissecar” a palavra, averiguar o significado primitivo dela (de “ir ao local das águas”) e comparar com as suas raízes derivadas já está funcionando. Mas, resta-nos algo ainda: há alguma raiz derivada de gam que esteja ligada ao elemento “água” e não somente à idéia de “ajuntar”, como vimos até agora? A resposta é “sim”, existe! Melhor que isso, há uma palavra na qual estes dois elementos, o de “ir, ajuntar” e “água” se encontram. Ela é גמא gome’ e significa “junco”, justamente o nome da planta que se “ajunta, aglomera” ao redor da “água” dos rios, como ao longo do grande rio Nilo, para absorver este tão precioso bem para o seu crescimento. Esta mesma raiz, quando se encontra conjugada no hif’il, significa “dar de beber”, como na passagem de Gn 24:17, quando o servo de Abraão, Eliezer, diz a Rebeca “deixa-me beber (הגמיאיני, hagmi’ini) um pouco de água do teu cântaro”.
Pronto! Fecha-se o raciocínio. É extremamente interessante perceber como a formação das línguas semíticas e de seus alfabetos, em geral, e do hebraico, em particular, é algo rico e lógico. Gostaria de comentar mais algumas coisas, como a relação com a noissa vida prática, atual, destas relações de raízes hebraicas, mas para que este texto não acabe se tornando enfadonho, mas sim um singelo e espontâneo comentário sobre esta letra hebraica, deixarei o restante do raciocínio para um próximo post.
 

Beit (I)

Continuando nossos posts sobre as letras hebraicas, a próxima letra que iremos nos aprofundar é o Beit. Quero seguir a ordem alfabética pois acho mais interessantes para comentários posteriores que irei fazer.
A letra Beit (ב) no hebraico é a segunda letra na ordem alfabética, e tem o valor de “2”, quando usada como numeral. Ela tem essa forma, chamada de “quadrática”, por causa da influência das letras feitas por cuneiformes na Babilônia, na época do Exílio do povo judeu por aquelas bandas dos rios Tigre e Eufrates. Sua forma pré-exílica original, no proto-semítico e no fenício (cujo alfabeto foi tomado pelos hebreus posteriormente), era conforme mostrado na fig. 1. b. Esta forma é a achada nas inscrições encontradas em Serabit El-Khedim, que indicam a evolução do Beit proto-semítico apartir deste hieróglifo egípcio. Essa origem pode ter sido o hieróglifo cujo desenho era de um recinto (fig. 1a, na palavra egípcia para “templo”, hwt, e na fig. 1.c, na palavra para horizonte, akhet).
Ela se encontra em muitas outras línguas semíticas, como no árabe (cujo nome é Ba – ب). Seu nome deriva da palavra Beit (בית) que significa “casa” (בית, bayt em hebraico bíblico). Daí a Betel bíblica (בית-אל, beit-el, “casa de Deus”) de Gn 12:18, onde Abraão fez sua tenda (אהל, ‘ohel) e edificou um altar ao Senhor. Ali também Jacó teve um sonho que, segundo o relato de Gn 28:16-17, tomou para si como sendo uma teofania e, dali em diante, reconhecera o local como casa de Deus (Gn 28:19).
Agora pergunto: o que a casa é para nós, humanos? Todos os animais tem uma “casa” – o passarinho seu ninho; o urso, sua caverna (Zé Coméia pelo menos tem a dele!); o leão, uma sombra projetada por alguma árvore na Savana para seu aconchego (acho que essa é a casa dele rsrs); as formigas, o bem estruturado formigueiro e assim por diante. Mas nós, seres feito à Imagem do Criador, além de vermos na casa um aconchego, refúgio contra o que está fora, vemos nela um lugar de interioridade, intimidade e também onde construímos algo para a posteridade. Hoje, em um mundo que é ao mesmo tempo tão cheio de “culturas humanas” (mesmo que existissem antes, foram estudadas melhor na Modernidade, como as do Extremo Oriente) e os progressos tecnológicos, mas ao mesmo tempo tão breve e vazio, temos a necessidade mais do que nunca de termos um local onde nos sentimos humanos, de onde podemos construir algo que permaneça para gerações, como um família estruturada e uma herança (também financeira, mas principalmente de vida e dignidade!) para nossa posteridade.

A casa no deserto: tenda de um nômade
Vejamos o que a letra Beit nos mostra sobre todos estes valores: quando ela vem anexada no início de alguma palavra, significa “em” e, às vezes, “com”, como em Gn 2:15 “E tomou o SENHOR Deus o homem, e o pôs no jardim (בגן, be-gan, no-jardim) do Éden para o lavrar e o guardar”. O que está “em” está no “interior”. Nossa casa é “dentro”, e não “fora”! Existe, claro, muita gente que é mais amiga que nossos familiares (PV 18:24), mas ainda não há coisa mais preciosa para alguém que ter uma família, em sua casa, em seu interior, em que se possa confiar e compartilhar de sua vida, quer sucessos, quer insucessos não é mesmo?
Não só isso, mas quando fazemos o paralelo entre esta letra e algumas raízes hebraicas que derivaram dela, vemos o quanto o pensamento semita antigo, principalmente o dos hebreus, é interessante, e ainda nos ensina algo para nossa vida, valores que mesmo sendo simples, tem uma importância extrema para nós, (pós?)-modernos.
A palavra Bait (בית) veio da raiz “בנה” (banah – “construir, edificar”). Mas onde está o “Nun” (נ) de בית, Beit? E podemos saber com toda a certeza esta relação entre Bait e banah? Sabemos a relação entre bait e a raíz banah na verdade por analogia com outras palavras parecidas com bait que contém raízes relacionadas a elas cujo Nun caira com a evolução natural da língua. Por exemplo, a palavra para “bolsa” (hebraico bíblico) ou “bolso” (hebraico moderno) – כיס (kis), vem da raiz כנסkanás – “entrar, ajuntar”. Quando ocorre isso em algumas palavras com mais de uma silaba, sabe-se que havia uma letra que “caiu” através do Dagesh Forte (sinal que indica consoante duplicada) que é posto no meio da letra seguinte a letra caida, indicando que a letra for a reduplicada para “tomar o lugar” da letra que caira. Isso ocorreu com חָזִּיר (chazir – “porco”), cuja forma original provavelmente fora חנזירchanzir (conferir o árabe خِنْزِير chinzir, onde o antigo Nun foi preservado). Mas, por alguma razão até agora por mim desconhecida, o Dagesh Forte não aparece na escrita massorética do texto bíblico na palavra para Bait. Por isso precisamos fazer estas analogias dela com outras palavras para chegarmos a conclusão proposta no início deste parágrafo.
Uma casa para a moradia é a construção humana por excelência, além de ser a primeira de todas as construções (ou aluguéis) que um homem faz na vida! Como estamos lidando com o pensamento de um povo antigo, semítico, expresso pela língua que falavam, precisamos saber também que alguns costumes eram quase obrigatórios à vida de um homem maduro. Um deles, após ter (en)casado, era o de ter filhos (Gn 1:22). Por isso as palavras para filho (בן, ben) e filha (בת, bat) em hebraico são derivadas da raiz banah e da palavra bait. É evidente a derivação na palavra ben, mas na palavra para filha precisamos conferir o árabe, onde a palavra para “menina, filha” é بنت (bint), onde o Nun de banah ainda se preserva. Daí, compreendemos que os filhos eram o objetivo final para aquele que construía um lar, uma casa, no pensamento hebraico, pois eram eles que levariam seus bens, materiais, de costumes e – principalmente – espirituais, para as gerações futuras. Este quadro é encravado hieroglificamente na própria palavra para filho, ben, formado pelas letras Beit (“casa”) e Nun (raiz relacionada às idéias de “semente”, “broto” e “prolongar”, “vir posteriormente nas gerações” – aramaico נונא, nuna, “peixe” – por causa de sua proliferação – e Sl 72:17 ”O seu nome permanecerá eternamente; o seu nome se irá propagando de pais a filhosינין, yanin – enquanto o sol durar…”): “os bens perpetuados nas gerações futuras”, que é justamente a função do filho na família hebréia antiga.
Para finalizar este (gigante?) post, existem outras duas palavras que queria mostrar aqui, relacionando-as com o que foi dito acima: בין (bein – “entre”, “espaço vazio entre dois ou mais objetos/pessoas”) e בינה (binah – “entendimento, compreenssão”). Elas provavelmente vêm também da raiz banah, pois para você construir algo, precisa ter compreensão e discernimento daquilo que faz, principalmente se for uma casa para sua própria família. “Entre” contém o elemento de “interioridade”, “espaço” entre as coisas, daí a derivação de banah e bait.
Veja o quanto aprendemos quando “ouvimos” aquilo que o pensamento bíblico-semítico nos tem a dizer, fazendo-nos atentar para conceitos que os modernos tempos querem ofuscar com uma luz energizada pela Razão humana, mas não pelo Pai das Luzes (Tg 1:17), que é a verdadeira fonte de entendimento e sabedoria para nossas vidas e comportamentos.

 

Álef (I)

Estive pensando sobre a letra Aléf, sobre seu significado profundo e interessante. Antes, porém, pesquisei mais um pouco, e descobri coisas que estavam além do que eu poderia imaginar… Aí, decidi escrever algo aqui sobre ela. Na verdade, estou pensando em falar sobre todas as letras do alfabeto hebraico, pois cada letra tem seu próprio significado.

Primeiro, ela é a primeira das letras hebraicas. Seu nome deriva de um termo hebraico, élef, que significa “boi treinado”. No hebraico bíblico mais “comum” e no moderno, esta mesma palavra significa “mil”, “milhares”. Mas, num significado bíblico preservado somente em alguns versículos, significa justamente isso: boi treinado (domesticado pelo homem e treinado para auxiliá-lo em seu labor no campo).


(fig. I) Evolução do Álef ao longo da história.

Podemos ver este significado em Dt 7:13: “E amar-te-á, e abençoar-te-á, e te fará multiplicar; abençoará o fruto do teu ventre, e o fruto da tua terra, o teu grão, e o teu mosto, e o teu azeite, e a criação das tuas vacas, e o rebanho do teu gado miúdo, na terra que jurou a teus pais dar-te” (ACF). Infelizmente, o grifo acima é a tradução da expressão שגר אלפיך – sh’gar ‘alafeicha – que realmente significa “os filhotes dos teus bois”, como o Targum Pseudo-Ionatan traduz (בקרת תוריכון – bakarat toreichon – “o gado de seus bois”).

Mas voltando a letra Álef…

Sua forma primitiva (no proto-semítico e depois no fenício, mostrada na foto em destaque acima) se parecia com uma cabeça de boi. A partir dela, a letra evoluiu para o nosso A uncial romano. Não se sabe o porquê dos semitas terem tomado simbolos, como a cabeça de um boi, para representar sons como do Álef (pois é! o Álef tinha som no passado… era uma pausa na fala feito pela glote, que hoje se perdeu), seu significado como formador de morfemas nas palavras e, enfim, gerador de palavras (pois a palavra Álef tem um verbo associado a ela, אילף – ‘ilef – que significa “ensinar, instruir” – origem compreensível – e, como dito, o número “mil” – אלף – élef - significado incompreensível).

(fig. II) Esfinge egípcia achada em Serabit El-Khadim com inscrições em proto-semítico.

A origem destas letras também é um mistério. Alguns dizem que são de origem própria, isto é, os semitas que criaram a partir de suas próprias vivências. Outros dizem que é de origem egípcia (dentre outros motivos, está a descoberta de inscrições em proto-semítico, numa pequena esfinge, nos arredores do Mt. Sinai (Serabit El-Khadim) datadas de circa 1500 a.C., possuindo fortes alusões egípcias. Outros alegam ainda uma origem mesopotâmica, apartir do sumério antigo ou acadiano, ou algo assim. Sustento a opinião de que estas letras são criação dos próprios semitas, possivelmente influenciados pelo caráter (já) milenar destas línguas citadas (egípcio, acadiano e sumério) de possuir símbolos derivados de objetos da realidade do dia-a-dia de seus falantes, que formavam palavras que significavam inicialmente aqueles objetos e que, por analogia mais posteriormente, acabaram também significando palavras mais abstratas ou verbos que tivessem relação com este signo inicial (como o desenho de uma boca para significar “boca”, ou casa para significar “casa” em egípcio, e que, posteriormente, estavam incluidos também em verbos como “falar” e “habitar”, por exemplo).

(fig. III) Fragmento de inscrições achadas na tumba de Seti II, no Egito. Detalhe: figura de um falcão, que é um dos sinais egípcios que correspondem ao Álef hebraico.

Não creio que os semitas, ou os hebreus, tivessem tomado os símbolos monoliterais ou biliterais egípcios para transformá-los em suas letras semitas, pois não há semelhança alguma entre aquelas equiparando-se a estas. Por exemplo, o signo de um falcão egípcio, que é o mais próximo do Álef semita, não se parece de forma alguma com a cabeça de boi da qual o Álef se derivou, em seus primórdios (compare as figuras I e III). E, como isso ocorre com outras letras semíticas e seus correspondentes egípcios, discordo desta derivação direta vinda do país do Nilo, como alguns alegam. Mas concordo que possa ter havido influências, ao menos…

Voltando ao Álef hebraico…


Além daqueles significados ditos acima, há ainda um terceiro: chefe, príncipe. Uma palavra idêntica ao nome Álef mas de pronúncia ligeiramente diferente nos mostra isso – אלף – aluf. Ela se encontra em vários lugares da Bíblia Hebraica, como em Genesis 36:15: “Estes são os príncipes (אלופי – alufei) dos filhos de Esaú: os filhos de Elifaz, o primogênito de Esaú, o príncipe Temã, o príncipe Omar, o príncipe Zefô, o príncipe Quenaz”.

Por que estou levando vocês por todo este caminho até aqui, passando por todos estes significados? Para mostrar que podemos compreender o hebraico, ainda hoje, como aquela espécie de “língua hieroglífica” do passado proto-semítico, onde signos representando algo da realidade se aglomeravam para formar os nomes destes objetos, ou de seres e conceitos diversos, relacionados à própria letra e ao nome dela.

Exemplo prático? vamos lá então. Álef significa “boi”… um animal forte (talvez o mais forte dentre os domésticos)… “chefe” (guia, amigo – Pv 16:28) e algo relacionado à “instrução” (ensino, treinamento). Acabei de mostrar o significado exato da palavra “Álef”.

Vejamos… Álef se escreve exatamente como as palavras dos significados que vimos acima, אלף . Esta palavra é formada por 3 letras hebraicas: א – Álef, ל – Lámed e פ – Pêh. Aléf significa apriori “chefe”, “forte”. Lámed significa “cajado”, “direção”, “guia”. Pêh significa “boca, fala, ensino” (veremos mais a fundo estas letras no devido tempo). Juntando… “o chefe (ou algo ou alguém forte) que guia na direção, ensinando”. Por isso uma de suas traduções é “amigo”. Mas… forte este significado não acha? Parece uma descrição aplicada ao próprio Deus…

Pois é… não é em vão que a palavra para deus ou Deus em hebraico seja אל -êl, só faltando o Pêh final. Este significado de “deus” vem de outro significado desta palavra, “forte” (que é usada em Sl 29:1). O Álef do hebraico atual tem a forma que deriva de uma evolução das letras hebraicas apartir do aramaico, idioma falado na Babilônia, na época do exílio do povo judeu para lá, no séc. VI a.C. Estas formas do hebraico são denominadas “assírias” (por causa da relação Assíria-Babilônia na época) ou “quadráticas”, por causa da forma das letras, como se estivessem “encaixotadas” (ver figura ao lado). Mas, não é por ter uma forma mais “posterior” que o Álef parou de ser interpretado pelos judeus.

(fig. IV) O Álef tal como é escrito pelos escribas em um rolo da Torá casher (apto para o uso sinagogal).

No Talmud está escrito que o Álef seria formado, na verdade, por dois “Yod”s (um por cima e outro por baixo) e uma letra “Vav” no meio, na diagonal, unindo estes “Yod”s (ver fig. IV). Ele continua afirmando que o Yod de cima representa Deus (o Tetragrama começa com esta letra). O Yod de baixo, Israel (que também se inicia com esta pequena letra, no hebraico). E o Vav, que representaria a Torá, se encontra no meio destes dois (Deus e Israel), une-os. Interessante notar que interpretações de tradições mais místicas do judaísmo (Zohar 73a) afirmam que “estes três níveis estão unidos um ao outro: o Santo, Israel e a Torá”. Interpreta-se que este dito seja uma referência ao Álef. Isso porque, no original, foram usadas as palavras קודשא – kodsha, para “o Santo”; ישראל – Israel, para “Israel”; e אורייתא – oráiyta – para “Torá”. Estas três palavras se iniciam com ק (Qof), י (Yod) e א (Aléf), que, somando seus valores númericos (em um processo que denomina-se Guematria), resulta no valor 111, que é exatamente o valor de cada letra que forma a palavra “Álef” (אל”פ ). Seria uma alusão ao dito talmúdico visto acima? Provavelmente sim…

O melhor disso tudo é que sabemos que Jesus disse que Ele é o “Alfa e o Ômega” (Ap 22:13). O “Alfa” grego, aqui, nos remete ao Álef hebraico, correto? Partindo deste pressuposto, podemos relacionar o que se interpretou no meio judaico sobre o Álef com o próprio Messias. Paulo diz que Ele é o Mediador entre Deus e os homens (I Tm 2:5). Ele seria o “Álef” por excelência, já que Ele, Filho de Deus, o Logos que esteve no sei de Deus, o Pai (o “Yod” de cima, na letra Álef), desceu à Terra, para habitar entre nós, homens (o “Yod” de baixo, na letra Álef), encarnando, tomando a forma de homem como nós, de servo, cumprindo sua missão aqui até o fim, para ser constituído por Deus como o Mediador (o Vav mediano do Álef) de uma Nova Aliança com Israel e, por conseguinte, com o mundo, sendo Ele mesmo a Paz entre nós e Deus (Fp 2:5-6). Sabemos que, apesar dessa língua ser uma língua totalmente humana (o próprio Talmud babilônico afirma isso, quando diz que “a Torá foi dada na língua dos homens” – Berachot 31b), não é por isso que ela deixou de conter elementos da revelação de Deus ao Seu povo Israel e à humanidade. Deus se utiliza de nossa própria humanidade, nossas fraquezas e sucessos, para mostrar o quanto precisamos Dele e de Seu poder atuando em nós (II Co 12:9).

Espero que tenham gostado deste post… acrescentei no título um “I” para indicar que ainda não acabou… mesmo que eu venha comentar de outras letras, voltarei quando convir acrescentando algo a mais sobre o Álef… sendo assim também com outras letras…

Erikebenavraham

 
 
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